Aparências
Luiz Maia
Preocupa-me o destino sombrio das relações interpessoais. A
informatização da sociedade aliada à violência nas grandes cidades têm
levado as pessoas a saírem cada vez menos de suas casas. Aumenta o número de
amizades virtuais em detrimento do contato pessoal. Vejo cada vez mais pessoas
interagindo com as máquinas em salas de bate-papo, participando de listas de
discussão, todas envolvidas com as facilidades da informática. Quase não vejo
mais ninguém se encontrando nas ruas, pessoas felizes sem ter local certo para
onde ir e muito menos hora certa para voltar.
É certo que muitas aparentam ser felizes, embora estando distante anos-luz da
sadia participação no mundo real. A violência por si amplia a necessidade de
ficarmos mais em nossas casas, como a nos proteger das maldades do mundo.
Acostumados a viver em seus casulos, o homem segue caminhando sem muitas
companhias. Quando somos forçados a nos afastar uns dos outros, banal e
irreversivelmente, é porque algo anda errado nas relações humanas.
Essa divagação traduz a minha insatisfação, além do olhar crítico de alguém
que não comunga com o desperdício do verdadeiro viver por parte de centenas de
jovens hoje em dia. A vida tornou-se frenética e os prazeres duvidosos. Diante
dessa realidade o homem passa por momentos de muita procura. Às vezes eu penso
em me encontrar com pessoas reais, porque já não há mais tempo para nada.
Preciso ver gente. Pessoas com as quais mantenho contatos virtuais diariamente,
mas que nunca as vejo e pouco sei de suas vidas. Mas sei que esse meu desejo não
vai florescer.
Essas coisas me fazem imaginar como seria oportuno um encontro para trocarmos um
forte abraço, instante propício para ensaiarmos uma longa conversa. O meu
entendimento de que as relações humanas estão cada vez mais empobrecidas
certamente me conduzirá por caminhos que me levarão a inevitáveis lembranças.
O certo é que já não existem mais encontros, nem os abraços, muito menos os
toques de antigamente... Eu sinto falta por compreender que essas coisas
oxigenam a vida.
O mundo entrou na era da informatização e não há mais volta. Sinto saudade
do cheiro de flores, das idas aos bares, dos parques floridos e das sombras das
árvores onde nos encontrávamos para uma simples conversa de fim-de-tarde. Como
não sentir saudade de pisar no chão descalço, do jogo de bola, saudade de
comer frutas em cima das mangueiras nos quintais. Eu só entendo a vida quando
vivida em total comunhão com a natureza, entre pessoas que se amam e se querem
bem.
Sinto a falta do calor dos abraços que já não são mais meus, da ausência de
falas descompromissadas com preocupações outras, dos risos inconseqüentes e
dos amores que estão por vir. Sou carente de coisas simples: das conversas
amenas nos restaurantes à beira-mar de Olinda, do papo descontraído na alegria
da chegada de mais um fim-de-semana, onde nos reuníamos à procura de um
recanto aprazível para extravasarmos a nossa sede. São coisas simples que eu
vivi um dia e que certamente davam um melhor sentido à nossa própria existência.
Sou feliz. Mas o mundo envereda por caminhos que eu jamais escolheria para os
meus filhos.
ooo
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