"A solidariedade impede que alguém fique só em sua fome.
Um fraco mais um fraco não são dois fracos.
É um forte, quando entre eles houver um mínimo de solidariedade que supera a solidão e que cria a união.
Pois a união faz a força.
Sem esta atitude, pode a humanidade continuar a ser humana?
Sem a solidariedade essencial continuamos a agredir a natureza.
Se não nos identificarmos com cada elemento do universo, se nós mesmos não nos sentirmos parte do sol, da lua, das estrelas, das nuvens, das árvores, das flores, dos passarinhos, do mico-leão-dourado, do tamanduá-bandeira e do urso panda da China de que as mulheres tanto gostam, se não fizermos uma experiência de não-dualidade com as pessoas, os pobres, os famintos, então certamente continuará a haver vias-sacras de dores no mundo até o juízo final.
Mas se a solidariedade florescer entre os humanos, então, sim, respeitaremos e veneraremos, veneraremos e amaremos, amaremos e nos unificaremos com todos e com tudo.
Tudo estará salvo porque tudo, enfim, estará ligado e religado a partir do coração.
A partir daí, até a fome é suportável porque nunca será a fome de um só em sua solidão.
Multidões estarão do seu lado porque o ser humano sempre habita solidariamente o mundo.
Por isso ninguém é uma ilha, nem um meteoro errático pelo espaço.
Todos nos pertencemos, todos estamos dentro de algum campo de energia benfazeja, todos somos o universo que sente, que pensa, que ama, que se solidariza e que venera."
Leonardo Boff, do livro Brasa sob cinzas - Estórias do anti-cotidiano
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