"A autoridade, o poder como generosidade"
"A liberdade vivida pelos índios confere marca singular à autoridade de seus caciques.
Estes nunca têm poder de mando sobre os demais.
Sua função é de animação e de articulação das coisas comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade individual.
Especialmente entre os guarani,vive-se este alto sentido de autoridade, cujo atributo essencial é a generosidade.
O cacique deve dar tudo o que lhe pedem e não guardar nada para si.
Em algumas tabas, pode-se reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos mais pobres, pois o resto foi tudo doado.
Nós, ocidentais, definimos o poder em sua forma autoritária: "A capacidade de conseguir com que o outro faça aquilo que eu quero".
Em razão desta concepção, as sociedades são dilaceradas permanentemente por conflitos de autoridade.
Imaginemos o seguinte cenário: caso o cristianismo se tivesse encarnado na cultura política guarani e não na greco-romana, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo.
Mas sua marca registrada seria a generosidade e o serviço humilde a todos.
Então, sim, poderiam ser testemunhas d'Aquele que disse: "Estou entre vós como quem serve".
Os indígenas teriam captado esta mensagem como conatural à sua cultura e, quem sabe, aderido livremente à fé cristã."
Leonardo Boff, do livro "Do iceberg à Arca de Noé"
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