Ferramentas Para a Paz
Embora não tenhamos força para pôr um fim às guerras, podemos nos concentrar no que é bom e cultivar o amor, a justiça e o perdão nas situações do nosso dia-a-dia, começando por estabelecer a paz dentro de nós mesmos.
"As bombas se empilham nas fábricas, a polícia percorre as cidades, as mentiras fluem pelos alto-falantes, mas a Terra continua girando em torno do Sol, e nem os ditadores, nem os burocratas, por mais que desaprovem o processo, são capazes de evitá-lo."(1)
Essas palavras do escritor inglês George Orwell, publicadas em 1950, são atuais.
Enquanto escrevo, a população do Iraque vive uma transição dolorosa, após uma longa ditadura opressiva, e a situação do Golfo Pérsico não é um fato isolado.
As políticas do Fundo Monetário Internacional geram miséria nos países pobres. O terrorismo ameaça os Estados Unidos e a Europa. Há perigo de guerra entre Índia e Paquistão. Ditaduras corruptas torturam e matam milhares de cidadãos na África. O governo da Coréia do Norte, esquecendo a pobreza do seu povo, pretende construir bombas atômicas. O nosso Brasil, por sua vez, segue refém da sua dívida externa e paga juros absurdos de mais de 25% por um débito de duvidosa legitimidade, cujo valor já foi pago há muito – mas nunca pára de crescer.
Apesar do círculo fechado dos conflitos humanos e das preocupações de curto prazo, a imensa Terra ainda gira em torno do Sol, fonte inesgotável de calor e bem-estar. O poder da natureza continua sendo incomparável, e a vida cósmica se desdobra graciosamente ao longo de bilhões de anos, abraçando bilhões de estrelas luminosas.
Assim como meu avô e meus ancestrais mais distantes, posso contemplar o infinito no céu que está acima de mim. Nenhuma lei me proíbe de fazer uma oração, enquanto meu olhar contempla as nuvens iluminadas pelo Sol avermelhado que se oculta na linha do horizonte. Não tenho forças para impor a paz nesse ou naquele país, ou para baixar a taxa de juros da dívida brasileira. Mas posso aceitar minha insignificância e ser solidário com as plantas, os animais e as pessoas ao meu redor. Os amigos da paz não conseguem impedir a guerra militar e econômica. Mas podem criar justiça e harmonia nas situações reais em que vivem – e isso talvez seja sua melhor contribuição para o futuro.
Há fatos externos que não dependem da minha vontade pessoal. Meu primeiro dever e minha principal oportunidade para agir como cidadão do mundo é estabelecer, humildemente, uma paz verdadeira em meus pensamentos e sentimentos. Posso concentrar minha consciência no que é bom – e então será mais fácil agir de maneira construtiva. Nada me impede de aceitar a vida como ela é, nem de aumentar a minha capacidade de amar, de ser feliz, de identificar a verdade e viver de maneira correta. "Melhor do que o ouro é a sabedoria", diz a Bíblia em Provérbios, 16:16-18, "e adquirir discernimento é melhor que a prata. A arrogância vem antes da ruína, e o espírito altivo abre caminho para a queda".
A paz mundial tem de começar no coração de cada um. Só depois ela se irradia para a vida prática externa. Assim, alimentar ódio contra quem promove a guerra é inútil, ou pior que inútil, porque tudo começa no pensamento. É melhor ser criativo e plantar ações e sentimentos de solidariedade nas situações reais que dependem de mim.
O ser humano tem dentro de si um centro imortal de paz e equilíbrio.
Mas a voz desse centro, que é a voz da razão, não grita. Ela fala por sussurros. A mente turbulenta e agitada deve fazer silêncio para que ela se faça ouvir. Sigmund Freud escreveu:
"A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, ela obtém êxito. Esse é um dos pontos sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, não é de pouca importância."(2)
A voz da razão vem falando aos corações há muito tempo – e ganha cada vez mais nitidez. O Dhammapada, que registra o ensinamento dado por Gautama Buda há 2.500 anos, afirma o seguinte, logo nos seus primeiros versos:
"O ódio não se extingue com o ódio. O ódio só se extingue com o amor. Essa é uma lei eterna."
E 500 anos mais tarde Jesus acrescentou:
"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Amem o seu próximo e odeiem o seu inimigo’. Eu, porém, digo a vocês: ‘Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês; desse modo vocês se tornarão filhos do seu Pai que está nos céus, por que ele faz nascer o seu Sol igualmente sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos’." (Mt 5:43-45)
Amar nossos inimigos significa ser corretos e justos com eles. Temos o direito de afastar-nos de quem nos agride e de preservar nosso sossego, mas devemos respeitar a todos os seres.
A sabedoria eterna recomenda, fundamentalmente, construir o que é correto, e só secundariamente combater o que está errado. Os sentimentos de revolta e rancor não são bons conselheiros. Embora seja indispensável ter espírito crítico, ele deve ser exercido com serenidade e sem apego.
O que fazer com os sentimentos de frustração? Quando me vejo como uma criança, psicologicamente, eu exijo ser compreendido e ajudado, e não dou importância a compreender ou ajudar. É a auto-estima, a percepção de que há algo absolutamente valioso dentro de mim, que me permite deixar de lado a luta neurótica pela auto-afirmação. Quando o centro de paz e os sentimentos de solidariedade despertam em meu coração, o afeto surge em direção aos outros de maneira incondicional.
Podemos estar insatisfeitos com essa ou aquela situação particular, mas temos fortes motivos para ser gratos à vida. Tudo o que somos é resultado da ajuda de outras pessoas. Desde o nascimento, fomos auxiliados a cada passo. A casa que habitamos, a roupa que vestimos, nosso alimento – tudo é resultado do apoio de outras pessoas e do trabalho de incontáveis gerações anteriores. Até mesmo a pior das sociedades humanas só existe enquanto há auxílio recíproco entre seus membros. Por isso, a competição é um aspecto menor na natureza. A cooperação é a lei.
Se eu quisesse fazer uma lista completa das pessoas que me ajudaram na vida, não conseguiria. Poucos, entre os que me ajudaram, receberam meu agradecimento sincero. Alguns me salvaram de graves perigos, outros me deram solidariedade em situações dolorosas, e não tenho como retribuir seus gestos. Por que, então, eu chamaria de ingrato alguém a quem ajudo sem receber agradecimento? Quantas vezes fui eu o ingrato?
Porém, há muita gente a quem posso pedir perdão. A quantos magoei intencionalmente, movido pela raiva? E a quantos mais magoei sem querer e com a melhor das intenções, movido apenas pela minha ignorância?
O motivo prático para perdoar e pedir perdão em minhas orações e meditações é muito simples. Um dos principais beneficiados com isso sou eu mesmo. Quando tenho a auto-estima necessária para perdoar e pedir perdão sinceramente, eu me liberto de mágoas imensas e de apego ao passado. Então, certos pesos insuspeitados desaparecem do meu subconsciente. Meu pensamento pode chegar, de algum modo, até a alma que fiz sofrer um dia – e libertá-la de uma parte das suas dores. Ao mesmo tempo, eu me vejo livre do peso do erro em minha consciência. Fico mais leve e mais apto para ser feliz.
Também posso perdoar, no templo do meu coração, aqueles que me magoaram. É claro que isso deve acontecer naturalmente, e não por obrigação. William Shakespeare escreveu, em 1597:
"O perdão não pode ser forçado. Ele cai do céu como uma chuva suave. Ele é duplamente abençoado, porque eleva a quem dá e a quem recebe. O perdão é mais forte nos poderosos, e coloca um monarca acima da sua coroa. Seu cetro lhe dá a força do poder temporal e é símbolo da reverência e da majestade, do respeito e do medo que os reis inspiram; mas o perdão paira muito acima do poder formal, pois seu trono se afirma no coração dos reis e é um atributo divino – e o poder terreno se mostra quase divino, quando a justiça se associa ao perdão."(3)
Freqüentemente esperamos e exigimos demais das pessoas. Criamos expectativas exageradas. E isso nos torna incapazes de mostrar gratidão, de reconhecer qualidades, ou mesmo de ter uma dose razoável de tolerância em relação aos erros dos outros. Desse modo, relacionamentos agradáveis passam a ser fonte de sofrimento. O escritor peruano Julio Ramón Ribeyro formulou uma tese pessoal a esse respeito:
"Não se deve exigir das pessoas mais de uma qualidade. Se encontramos uma qualidade nelas, já devemos sentir-nos gratos e julgá-las por ela, e não pelas que lhes faltam. É errado exigir que uma pessoa seja simpática e também generosa, ou que seja inteligente e também alegre, ou que seja bonita e também leal. Aceitemos dela o que ela pode dar-nos. Que a sua qualidade positiva seja o caminho privilegiado através do qual nos comunicamos e nos enriquecemos."(4)
Para evitar confusões e conflitos desnecessários, é útil distinguir o que se vê do que se faz. São duas coisas diferentes. É saudável ter uma visão ampla e universal da vida, mas nossa ação prática deve ser clara, pontual e definida. O pensador romano Terêncio escreveu: "Tudo que é humano me diz respeito." Esse pensamento é sábio. De fato, cada coisa se relaciona com todas as outras, no vasto cosmo. Como escreveu Victor Hugo em Os Trabalhadores do Mar, pode-se dizer que as praias do norte da Europa sentem o impacto das ondas de mar do sul da África. É sensato, portanto, que eu tente compreender todas as coisas, e especialmente as leis que regem tanto o universo como a minha existência pessoal. Mas qual é minha tarefa? Qual a minha vocação natural?
Meu dever é administrar bem aquilo que está a meu alcance, e não pretender controlar o que não depende de mim. "Pensamento global, ação local", diziam os ecologistas durante a década de 1980. Quando eu pretendo agir sobre algo que está fora do meu alcance, fracasso. Mas, quando faço com eficiência o bem o que está dentro dos limites do possível, minha boa ação acaba tendo conseqüências benéficas sobre situações distantes.
Na medida em que descobrimos o caminho espiritual e mantemos um espírito prático diante da vida, certas coisas começam a perder valor para nós. A simplicidade pessoal nos ensina a abrir mão do que é secundário. Não existe aqui uma renúncia forçada, feita por obediência cega a um mestre ou uma escritura sagrada. Mas vemos as coisas como elas são – e apenas evitamos o caminho do auto-engano antes de sermos traiçoeiramente surpreendidos pela desilusão.
Isso não se consegue da noite para o dia. A caminhada da alma humana avança sem pressa e sem pausa, percorrendo um período de tempo que, em nosso estágio atual, bem poderíamos considerar uma eternidade. Mas cada passo dado no caminho amplia o horizonte, alivia o sofrimento e nos torna interiormente mais felizes.
Devemos ser modestos. Dentro de algum tempo, o terrorismo e as guerras finalmente serão coisas do passado, mas é um fato que ainda estamos na pré-história da nossa felicidade.
Avançamos lentamente para um futuro abençoado de fraternidade universal, em que teremos esquecido o tempo da guerra e da injustiça. E a Terra continuará girando, bela, azul e humilde, em torno do Sol da luz eterna.
Notas
(1) Cazando un Elefante, de George Orwell, Editorial Guillermo Kraft, Buenos Aires, 1955. Ver p. 196.
2) O Futuro de uma Ilusão, de Sigmund Freud, Editora Imago, RJ, p. 83.
3) O Mercador de Veneza, Cena I, Ato IV. Para traduzir o trecho, comparei o original em inglês (Complete Works, Magpie Books, Londres, 1992) com a edição das obras completas de Shakespeare, Edições Melhoramentos, SP, volume III, tradução de Carlos Alberto Nunes, pp. 173-174.
4) Citado em Serenidad, obra de Alberto Briceño Polo, Sairam Editores, Lima, Peru, em formato de bolso. Ver pp. 90-91.
AMOR E PERDÃO
Ferramentas Para a Paz
Por Carlos Cardoso Aveline
Revista Planeta - edição 368
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