Triste partida
Luiz Maia
No começo do namoro não podíamos ficar sem nos ver por muito tempo. Na volta para casa fazíamos questão de trazer uma flor ou um chocolate, simbolizando nossa felicidade. Chegamos a imaginar que ninguém poderia viver uma relação assim. Nossos amigos achavam que a gente formava um casal perfeito, mas eu nem ligava para a observação. Às vezes inventávamos o que fazer imaginando que podíamos nos cansar com a presença do outro. Fazíamos de tudo para nos livrar do tédio, pois diziam que a rotina costuma destruir relações e não queríamos que isso acontecesse conosco. Só não sabíamos como evitar tanto ciúme. Aos poucos fomos temendo tamanha felicidade. Não havíamos experimentado nada parecido antes.
Por algum
tempo apostamos na hipótese de fortalecer nossa relação. Ao
tentar nos proteger de eventuais problemas, esquecemo-nos de viver a vida em
total plenitude. Um dia insinuamos saudade da vida de solteiros. Imaginamos,
em meio à forte discussão, que a vida de casado não mais nos satisfazia.
Chegamos a dizer que vivíamos uma grande mentira. Mesmo assim perseguíamos a
felicidade a dois, fosse como fosse. Mas, dominados por essas incertezas,
fomos tragados pelo desencanto. Não soubemos compreender a grandeza da
amizade que conduzia nossa relação. Aos poucos fomos nos agredindo
mutuamente, maldizendo nossas vidas e desejando o mal para nós mesmos.
Aquele amor não poderia sobreviver a tantas agressões. É verdade que
erramos ao valorizar muitas vezes fatos sem importância. Não soubemos
imprimir a tolerância ao pouco do amor que restou. Ficamos desnecessariamente
expostos a tão feridos sentimentos, apenas porque maior que o amor que nos
unia era a insegurança que teimava em nos afastar. Até que um dia o amor foi
vencido pelo ciúme que tomou conta de nossas vidas. Ela não suportava me
imaginar nos braços de outra. Eu não conseguia pensar que ela pudesse fazer
outro homem feliz.
O fato é que sentíamos ciúmes por tudo. Parecia que nosso amor não cabia
mais dentro daquele apartamento e um de nós precisava sair dali para que
aquele amor pudesse sobreviver em nossas lembranças. Numa tarde de domingo
nossa união chegou ao fim. A princípio essa idéia parecia absurda. Mesmo
assim, por mais paradoxal que pudesse ser, rompemos a relação mais bonita
que se pode imaginar. Foi necessária muita coragem para admitirmos que
nossos caminhos seriam diferentes dali em diante. Quantas vezes me senti o
mais tolo dos homens por não conseguir convencê-la do meu amor por ela.
Quantas vezes ela sentiu-se culpada por não domar a incerteza que a
dominava. Finalmente nos despedimos chorando, e ficamos abraçados assim
por um bom tempo. O majestoso pé de flamboyants, que ficava defronte à
janela do nosso quarto, parecia compreender a nossa dor quando esqueceu de
florescer um dia...
ooo
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