Serena tranqüilidade
Luiz Maia
Você partiu sem me dizer uma palavra. O tempo passou sem que eu entendesse sua repentina viagem. A vida correu sem novidades, sem que eu me desse conta dessa imensa saudade. Até que as notícias me chegaram como por encanto, vindas de você. Só escuto palavras bonitas, às vezes indecisas, é certo, quando se referem a mim. Chego a imaginá-la diferente de quem é, e eu, de quem de fato sou. Palavras soam como versos que me embalam, expressando amor, levando-me a falar do quanto preciso de você para seguir minha alegria. Eu fico tentando expressar meu contentamento, mas confesso que pouco saberia dizer. Como falar, por exemplo, da saudade explícita que encobre desejos latentes, que chega a doer ao vê-los sucumbir nas entrelinhas? Não, dificilmente eu saberia falar...
Quando
a leio, sinto-me criança outra vez. Aí não tem
como não pensar em coisas que eu supus que não devesse
nem dizer, mas é tudo balela. Querida, quão absurda e
preconceituosa eram minha visão de vida, meu entendimento de
mundo! Eu só sei que um dia eu a quis, mas você nunca me
teve. Uma vez cheguei a dizer que a vida nos
oferece tantas possibilidades e só deixamos de
aproveitá-las por razões meramente culturais. Mas
reconheço a força da cultura de um povo sobre os
ímpetos advindos da natureza. Relembro aquele beijo não
dado, a sensação de calor que percorria nossos corpos
na iminência de mais um doloroso silêncio que nos
envolvia. Lamento pelo abraço esquecido, pelos versos
desfeitos, coisas bonitas que se perderam nos caminhos escuros que
certamente não escolhemos seguir.
Penso
em você e sou revestido de serena tranqüilidade. Há
tantos ruídos na noite, há tantos gritos que incomodam
meu sono, que chego a imaginá-la bem perto a mim, a me
envolver com sua alegria. Num instante eu recupero a consciência,
mas aí vem você a dizer que nossas mentes não
envelhecem, que nossos corpos se amoldam às circunstâncias
da vida. Mas acontece que fui surpreendido com o passar do
tempo, e já nem sei se eu a quis um dia. Hoje olho na velhice
dos outros e noto que também caminho com certa dificuldade.
Meus gestos já não obedecem ao meu comando, abracei o
cansaço de vez e talvez nem me reconheça mais. Nesses
dias em que penso em você, colho imagens distorcidas,
mesmo na vã recordação do que fomos
outrora. Por que não vejo mais as estrelas errantes, distantes
que estão dos meus olhos cansados?
ooo