Os ensinamentos de seu Horácio
Luiz Maia
Ultimamente tem feito muito calor no Recife. Se a temperatura não baixar não sei o que será de nós. Até a costumeira brisa, que nos acalenta nessas horas, tem nos faltado e preocupado muito. Por causa do aquecimento global o melhor a fazer é pegar as malas e descansar noutro lugar. Existe uma cidade interessante de clima ameno e distante 70 quilômetros do Recife. Às vezes tenho vontade de para lá retornar. A melhor parte fica por conta de eu poder rever o meu amigo Horácio, conhecido como "pintado" devido ao sinal que traz no rosto. Matuto do interior pernambucano, sertanejo dos bons, ele dá mostras de ser um homem vivido e experiente e com muitas lições para ensinar. Educado ao extremo, costuma falar manso e a todos conquistar. Ele só se refere às pessoas chamando-as de "doutor". Não adianta reclamar; é um hábito antigo seu. Trata cada um com muito respeito, nunca larga o chapéu e tem sempre alguma coisa a nos dizer.
Não
nego o prazer que tenho ao encontrar-me com ele. Cumprimento-o quando
chego e passamos logo a conversar. A partir desse momento
prefiro calar para somente ouvi-lo. Certa vez eu quis saber um
pouco mais de sua vida e lhe perguntei: - Por que às vezes o
senhor faz uso do silêncio se tem tanto para
ensinar? Ele responde: - "Tenho certeza de que foi quando eu
mais falei que eu mais perdi na vida. E por temor hoje eu me calo. Da
vida sei muito pouco, apenas o suficiente para entender que as coisas
simples não são consideradas pelas pessoas. Por
isso elas se enganam correndo atrás do superficial".
Quando
perguntei sobre a loucura do tempo, ele olhou para mim e para o céu
nublado e, com os olhos marejados, começou a filosofar: -
"O homem imagina, doutor, que detém todo o
conhecimento do mundo, que é inteligente a ponto de destruir
florestas inteiras como se um dia nada pudesse lhe acontecer. Esquece
o homem que a natureza não perdoa quem a agride desse jeito.
Um dia ela vai responder cobrando tudo o que lhe foi tirado. É
a lei da vida, doutor. Nosso planeta é belo. O Brasil
talvez seja o país mais importante do globo devido à
diversidade do seu ecossistema. Mas o brasileiro parece não
dar valor a toda essa riqueza que é sua. É uma
pena estarmos assistindo ao início do fim. Eis uma das razões
desse tremendo calorão".
Certa vez
seu Horácio viajou para ir morar em São Paulo.
Sabendo disso perguntei o porquê dele deixar sua cidade
amada para tentar a sorte noutro lugar. Ele me disse meio
que sorrindo: - "Sabe, doutor, muitos entenderam essa minha
viagem forçada como sendo o único caminho para eu
me livrar dos problemas e poder abraçar minha
liberdade. O que eu desejava mesmo era uma vida
decente onde eu pudesse trabalhar para ganhar o meu sustento. Enfim,
ter como sobreviver e poder levar o pão sagrado para os
meus. Sofri muito com isso, doutor. Infelizmente eu não
sabia que aquilo que eu realmente buscava não passou
de um equívoco meu. Eu me enganei completamente. São
Paulo é uma cidade grande demais para mim. O lugar que
eu procurava outro não era senão este em que
estou, a cidade em que eu nasci".
Ao lado de seu Horácio eu me sinto muito bem. Talvez como um menino que tem o poder de fazer trelas sem jamais ser repreendido. É um sábio em seus pronunciamentos apesar do pouco ou nenhum estudo em sala de aulas. São ensinamentos de um homem simples que guarda intimidade com a natureza e tudo faz para preservá-la. Ao término de nossas conversas fico sempre a me perguntar: onde fica esse muro que nos impõe tantos limites? Que sociedade de classes é essa que teima em querer nos separar? Quando mudaremos essa falsa realidade? Onde fica o fundo do poço do aquecimento global? Perguntas que um dia seu Horácio certamente vai me responder.
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