Nada além
Luiz Maia
Escute essas minhas palavras em forma de ternura. São lembranças minhas. Um dia, no silêncio de seu quarto, quem sabe você possa escutá-las sem que o sentimento de culpa venha esconder sua alegria. Você nunca pediu para entrar no meu pensamento. De repente, você me invade e é quase impossível expulsá-la porque já sou eu quem a espera. Creio na força do pensamento e transformo esse meu gesto em alento cuja razão guia os meus passos. Admiro seu jeito de arrebatar corações, algo que mexe com o imaginário da gente. Sua alegria contagiante me levou um dia a pensar que você era um sonho de verão. Mas logo o inverno chegou, trazendo consigo a realidade.
Ah, esse desejo que me
incendeia o peito chega a doer em minh'alma. Já não há escolhas, preciso
confessar-lhe. Falo sobre o que considero um amor bonito, quando, a partir de um
certo instante, eu passei a sentir por você uma atração forte a ponto de
desejá-la. Até que um dia eu quis beijá-la, conhecê-la em sua intimidade.
Mas em nenhum momento você usou de cumplicidade. Nas vezes em que eu a desejei,
o sentimento de culpa logo se apoderou de mim. Percebi que você já não era a
menina de antes e aquele seu jeito de mulher despertara em mim um sentimento
bonito, mas de difícil compreensão. Sei que nem lembra, quando certa vez
busquei melhorar sua aparência e sugeri que você mudasse de penteado. Eu a
achava uma graça quando defronte do espelho escolhia suas roupas, arrumava o
cabelo, sempre olhando para mim. Eu parecia um bobo apaixonado, admirando seu
sorriso nos lábios, a me perguntar se ficara bonita.
Acontece que com o passar dos anos as coisas tomaram outras proporções. Além
do natural amor que eu sentia, fui levado de repente por um desejo que era mais
forte que eu. Sem que você soubesse, eu passei a olhar de lado os seus
namorados. Quando se arrumava para eles, meu ciúme era visível. Por algum
tempo fiquei refém desse sentimento e isso me incomodou em parte. Até que um
dia resolvi escrever uma poesia em sua homenagem, nada além disso eu poderia
fazer. Creio que não escolhemos o papel que vamos representar nessa existência
de forma consciente. Vamos tocando a vida e sofrendo as conseqüências do que
fazemos e pensamos. Só na maturidade alguns de nós conseguem entender o que
somos, o que fizemos de nossas vidas. Mas aí muita pancada já levamos e não
podemos mais voltar no caminho. Nada como o passar do tempo para apagar nossas
fantasias, nossos sonhos de verão.
ooo
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