Homenagem à amiga...

Luiz Maia

De repente te abandonaram ali, numa sala imunda sem explicação. Quebraram teus jarros com flores, queimaram teus livros, pisaram teus sonhos, mataram as orquídeas da sala de estar. Tolheram a vida quando impediram teu livre caminhar. Negaram-te o direito de saber como seriam os teus dias. Fizeram-te de boba para que não compreendesses a realidade, para que não soubesses das noites escuras que estavam por vir. Puseram vendas em teus olhos, jogaram-te na mais longa escuridão. Calaram tua boca, amordaçaram tua alma. Inibiram teus sonhos, roubaram os amores que buscavam a ti. Até que um dia disseram que não existias. Fizeram-te ciente apenas dos acontecimentos havidos nos corredores da dor. Tentaram te transformar numa pessoa sem nome, cuja aparência amarga negaria quem verdadeiramente és. Não supunham que pudesses descobrir no infortúnio a graça da poesia, o inusitado da analogia dos temas grandiosos.

Não seguistes o caminho que as forças tenebrosas quiseram te impor um dia. Hoje tu só queres agradecer à  vida. Dizer bem alto que valeu a pena não desanimar, que não foi em vão ter acreditado no amanhã. Ainda que por ora oculta, palpita a beleza da vida em teu coração. Peço para que não me esqueças, minha amiga. Nem dos teus amores, aqueles a quem amas tanto! Repare em tudo à tua volta, em tudo o que começa a dar certo dentro de ti. Mesmo no decorrer da dureza dos dias tristes, sempre aflorou em ti o desejo de enaltecer a vida. Hoje estás consumida pela  luz das palavras, uma apaixonada pela vida que teima em existir. Há muitas verdades no mundo, todas precárias e provisórias. Aceitem a complexidade da vida, esta que faz o homem agigantar-se no mundo e vencer os maiores obstáculos. Valeu a pena ter acalentado a esperança para que um novo tempo surgisse diante de ti!

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